terça-feira, 8 de novembro de 2011

Por que comemos tanto?


Os seres humanos são notoriamente inábeis em perceber seus sinais de fome e saciedade. Ao invés de ouvir nosso estômago - um órgão muito elástico - contamos com todos os tipos de estímulos externos, desde o tamanho do prato para o jantar até os hábitos das pessoas que nos rodeiam. Se o tamanho da porção for duas vezes maior (nos EUA, por exemplo, o tamanho das porções aumentou em 40% nos últimos 25 anos), vamos comê-la até o final e a sobremesa, inclusive.

Em estudo muito interessante feito por Brian Wansink, estudioso do comportamento alimentar, utilizou-se uma tigela de sopa sem fundo - havia um tubo escondido que repunha constantemente a sopa na tigela de baixo para cima - para demonstrar que o quanto as pessoas comem, em grande parte, é em função da quantidade dada a elas ou quanto está disponível. O grupo com tigelas sem fundo acabou consumindo quase 70% a mais do que o grupo com tigelas normais. O que é mais curioso: ninguém sequer percebeu que tinha acabado de tomar muito mais sopa do que o usual.

Em outro estudo, realizado em 2006 por psicólogos da Univ. da Pensilvânia, foi deixada à mostra uma tigela  de chocolate M&M’s em um edifício com grande circulação de pessoas. Ao lado do recipiente tinha uma colher pequena. No dia seguinte, houve uma reposição de M&M’s, mas foi colocada uma colher muito maior ao lado. O resultado não seria surpresa para quem já optou por uma porção grande de batatas fritas do McDonald’s: quando o tamanho da colher foi aumentado, as pessoas consumiram 66% a mais de M&M’s. Claro, eles poderiam ter comido mais doces no dia anterior, simplesmente repetindo as colheradas. Mas, assim como porções maiores nos levam a comer mais, quanto maior o recipiente ou a oferta, mais “glutões” foram os moradores do local.

O tamanho da porção não é a única variável que influencia o quanto nós comemos. Comer é uma atividade social, entremeada por muitos de nossos anseios mais profundos e instintos. E isto nos leva ao novo estudo, realizado por psicólogos da HEC Paris e da Kellogg School of Management. A questão que eles queriam responder é por que as pessoas optam por porções maiores. Se sabemos que não será bom comer aquela porção gigante de batatas fritas, então por que insistimos em pedi-la? O que nos leva às superporções?

A hipótese de Galinsky, et. al. é que as porções maiores são um marcador sutil de status social:
O ato de escolher um tamanho específico dentro de um conjunto de opções hierarquicamente organizadas é um caminho pelo qual os indivíduos sinalizam para os outros sua posição relativa na hierarquia social. Como consequência, maiores opções seriam selecionados pelos consumidores, não apenas por uma necessidade funcional de fome, mas devido a um desejo de sinal de status.
E essa não é uma hipótese estranha. Pense, por exemplo, no reino animal: o mais poderoso é aquele que come a mais. Ou pode-se pensar em todas as normas culturais que associam produtos maiores a um status maior, do tamanho da tela de televisores para a metragem quadrada das casas. A maior não é apenas melhor - é também muito mais prestígio, um sinal de que podemos dar ao luxo de fazer alarde sobre quartos vagos que nunca vai usar.
Parece que um dos fatores que nos leva a consumir excesso de alimentos é a falta de status social, enquanto tentamos “elevar-nos” através do consumo de refeições exageradas. Infelizmente, isso só leva ao ganho de peso excessivo que, como observam os pesquisadores, aumenta ainda mais o estigma que acompanha a obesidade, o que provoca um efeito contrário, diminuindo o próprio status que estamos tentando aumentar.
O ponto mais importante é que nós não apenas comemos para preencher o vazio em nosso estômago. Segundo os autores, comemos excessivamente para encher todos os tipos de vazios, um dos quais é uma falta crônica de status.
Traduzido e adaptado do texto de Jonah Lehrer, disponível em: http://www.wired.com/wiredscience/2011/11/why-do-people-eat-too-much/